- Bom dia
- …
- Para a baixa por favor.
- Isto hoje está do caneco. E quer ir por onde?
- Tanto faz, está tudo encalacrado não é?
- Pois. Não sei de onde sai tanto carro. Do caneco…
- Mas terá havido algum acidente?
- E é preciso?
- Pois…
- Do caneco…olha olha! Ó Lena!... A puta não me ouviu… ou então ouviu e não fez caso… puta! Andei meses a ajudá-la a pagar a renda… para nada. Puta! Isto é uma merda. Isto a partir dos cinquenta é sempre a descer. É como costumo dizer: a partir de uma certa idade começamos todos a ficar comunistas… Fui ontem almoçar com o meu primo e estava a dizer-lhe isto mesmo, todos comunistas, com a idade. Dizia-lhe eu: pois é doutor – o meu primo é médico – isto com a idade todos comunistas. Ele, que me conhece disse-me logo: Ó meu cabrão, então logo tu, transmontano… eu expliquei-lhe: Com a idade comunistas porque da cintura para cima martelo… da cintura para baixo foice… O que o cabrão riu. Uma doutora que almoçava na mesa ao lado quis saber porque é que ele ria tanto e eu: É que com a idade passamos todos a ser comunistas! A gaja, que devia ser toda esquerdalhuda, desatou logo a perguntar qual é o mal de passar a ser comunista e tal… E eu então expliquei-lhe que da cintura para cima martelo… e da cintura para baixo... Epá, o que a gaja riu. Mijou-se de tanto rir! Riu-se tanto, mas tanto, que acho que o marido dela já devia ser p'raí do comité central.
Com a idade comunistas
Leolnilda Intrépida
Leonilde Intrépida, fugaz funcionária pública na curteza do dia, limava a unha do indicador, falhada, que a impedia de se concentrar devidamente na revista cor-de-rosa que folheava desde as dez e trinta, mais coisa menos coisa, hora em que dera entrada ao serviço. Enlevada na profundeza dos seus pensamentos - saia verde ou camiseiro azul - nem reparou na pessoa que já repousava cotovelos no balcão da repartição.
- É no piso de baixo, obrigada. - A pergunta não interessava. Na verdade e como no piso de baixo se amontoavam muitos e o elevador ainda estava avariado, quando o sujeito desse pelo erro e voltasse, já ela tinha saído para almoço. Este tipo de expedientes não a incomodava. O facto de agradecer sempre, demonstrando assim simpatia pela contrariedade imposta pelo sistema aos pobres dos utentes, trazia-lhe uma auto-solidariedade absolutamente reconfortante.
E nisto a vida passou-lhe breve. Hoje reformada e junto dos netos vangloria-se do seu serviço público, da folha sem mácula, das notações sucessivas 10 e até de ter escapado à lista dos excedentários, reconhecimento último de uma vida de dedicação. Mas ainda assim se questiona: - E tudo para quê? - Afinal uma incompreendida. Nunca o Guiness lhe apareceu e no entanto todos quantos a conheciam podiam efectivamente atestar que Leonilde Intrépida era rápida, era muito rápida, senão recordista mundial: Leonilde conseguia quase todos os dias sair do serviço às cinco e lá pelas quatro e meia, o mais tardar, já estava em casa.